
Os Filhos da Fome Caro Amigo Leitor, experimente não comer nada, mas nada mesmo por pelo menos dois dias, e terá assim o real conhecimento do que é a Fome. Isto feito, certamente comungará comigo do sentimento de revolta, diante a situação agonizante dos 40 milhões de famintos da Somália e dos 32 milhões de famintos do Brasil. Sentirá também, com toda certeza, ainda que infimamente, a dor de cada um deles, o desespero, o saber esvair-se dia a dia, a pele secando, a vida minguando... minguando, o morrer-se hora a hora.
Certamente os números citados acima poderão lhe causar espanto, mas estão corretos, é isto mesmo: Brasil e Somália são irmãos na Fome, na Miséria e na extrema Pobreza.
Ficar impassível diante tal quadro, creio impossível para qualquer um de nós. Ver o nosso semelhante mastigar lixo apodrecido [quando encontra]; suportar um profundo vazio em seu corpo; tomar água de barro e lama; sugar o caldo de pedras fervidas para sossegar os gritos do estômago... E sentir nossa impotência para reverter esta realidade cruel, confesso: é para mim o mais doído dos sentimentos.
Dirá Você, Caro Amigo: mas eu ajudo alguns organismos humanitários nacionais e internacionais; sou doador de cestas básicas para diversas famílias... etc...etc... eu também, respondo-lhe. Mas convenhamos, é pouco, é nada, insuficiente para que possamos dormir o sono dos justos. Eles, Os Filhos da Fome são milhões, nós centenas, quiçá milhares [?], pois bem: ai reside o que chamo de dolorosa impotência, de desesperada inutilidade, aliviamos a fome de poucos, e dos outros milhões que continuam famintos?
O Brasil é o quinto país do mundo em extensão territorial, ocupando metade da área do continente sul-americano. Há cerca de 20 anos, aumentaram os impostos, o fornecimento de energia elétrica e o número de estradas pavimentadas, além de um enorme crescimento industrial. Nada disso, entretanto, revertido para combater a pobreza, a desnutrição e as doenças derivadas da fome.
Pensar a Fome, tanto no Brasil, quanto na Somália, vai além de nós- andorinhas solitárias, digo pensar no sentido estratégico de políticas públicas concretas e eficazes, que toquem nas feridas da miséria, que curem definitivamente as chagas das vitimas. Os governantes apregoam em alto e bom som intervenções miraculosas, juram exterminar as desigualdades, , quando na verdade enganam nossos excluídos com meros placebos [desnecessário elencar - por todos sabidos] , enquanto estimulam o crescimento da fartura e da abundância de minorias já enriquecidas à custa da exploração de um povo sem voz, sem teto, sem rumo, sem destino.
Aos indiferentes a esta realidade, dedico minha ira e, incrimino cada um deles, pois não há exagero nas pinceladas deste retrato, não abusei das tintas: digo apenas e tão somente de uma verdade que sangra diante meus olhos que veem e choram. Se eles passam ao largo dos desamparados, lacram suas moradas para não ouvir o clamor das dores dos desesperados, trocam de calçada para não correr o risco de encostarem-se às chagas dos abandonados, que lhes sejam imputadas as penas de cúmplices, que a insônia devore suas noites, que lhes sejam dados todos os castigos bíblicos. Desejo e espero!
Ouso sonhar e buscar fazer por um mundo justo para todos, onde a equidade prevaleça, que cada ser humano como tal viva, com saúde, com educação, e principalmente que em sua mesa nunca falte o pão.
Jamais me calarei diante a iniquidade, a mentira, e a farsa-vigentes, que nos esbofeteia e violenta. Ainda que berrem os situacionistas de plantão, porque partilham dos mimos de Governantes corruptos. Tal gentalha não me causa temor: que me contestem, que me critiquem, suas vozes estão sujas do suor e do sangue dos inocentes, logo são ecos dos podres-poderes. E contra eles, estou inoculada.
Todavia, vacina não existe contra o suplício cotidiano que se acirra e se evidencia na vida dos rejeitados, submetidos à dor da fome, do sofrimento do corpo e da degeneração de sua humanidade.
Tudo isto me leva a crer que os Dirigentes do Brasil e da Somália, importunados pelos Filhos da Fome, no oculto de suas alcovas, pensam: Por que resistem? ? Ou, Por que ainda vivem?
Os Filhos da Fome são também Os Filhos dos Martírios!
“.... estamos experimentando, pelo lado mais sanguinário, a força de uma sociedade desigual, sombria, perversa e assassina, que cria métodos e instrumentos de “limpeza” e que ergue revólveres e facas, pedras e lâmpadas, palavras, atos e gestos contra os que “enfeiam” o higienismo psicopata dos sistemas de privilégios”.
Embora meu brado caia em ouvidos mocos, seguirei clamando por justiça, e pelos direitos de cada um dos Famintos e dos Excluídos!
Quem sabe, outros indignados,juntem seus clamores aos meus e possamos unidos formar uma infinita corrente humana,forte e audaz capaz de promover definitivamente a construção de um Planeta,onde a Vida seja de maior valia.
