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sábado, junho 11, 2011

"O Homem é um gênio quando está sonhando."

Cinema e Poesia

[Dedico a:Belvedere Bruno, Maria João,Naldo Velho, Osvaldo Pastorelli, Eliana Crivelani, Elane Tomich,Ana Merij e Claúdia Cardoso, porque inspiraram este artigo]. 

Breves Recortes de uma relação intersemiótica em Akira Kurosawa*


Segundo Freud e Lacan, os sonhos são a estrada através da qual o conhecimento do inconsciente se torna possível. Seja qual for a conceituação, nada é mais encantador do que a pura entrega ao espetáculo do sonho, reino de imagens poéticas e sons cuja mensagem sempre se mostra misteriosa e plena de magias.
Para Akira Kurosawa, é a própria vida:- sonho e poesia se complementam de tal forma que transfere esta linguagem imagética para seu universo cinematográfico, onde, múltiplos recortes temáticos de um cineasta inquieto- sempre em conflito com suas próprias crises existenciais, porém obstinado pela luta à valorização das relações humanas e a esperança de um mundo melhor  

É o que Akira nos demonstra, mais que em qualquer outra de suas obras, em Sonhos:- uma relação intersemiotica, entre a linguagem artística e sua interlocução com o cinema, em especial na expressão estética e narrativa de elementos capturados de outras artes.

Kurosawa fez com que o distante e  complexo cinema nipônico chegasse aos mais diversos públicos. Se durante décadas os seus filmes permaneciam restritos a uma elite de cinéfilos, hoje ele - gênio contemporâneo das imagens faz com que imensas faixas aproximem-se de seus filmes.

De toda sua imensa filmografia - sem dúvida que "Sonhos" é o mais delicado, o mais belo, lírico e absorvente de seus filmes.

Só um artista e pensador em sua plena maturidade poderia conceber uma obra em que unisse a reflexão, a visão onírica de um território tão imenso - o dos sonhos ,em tão harmoniosa ode a favor da humanidade.


- Sonhos:

Uma Ode à beleza, ao amor, a natureza, a paz, ao entendimento entre os Homens.

Sonhos trata em sua maior parte, da natureza, do egoísmo humano, da destruição do planeta, num esplendor de imagens e gestos.

Como nas poesias líricas, cada página fílmica de Sonhos sempre inicia com a frase recorrente –“Eu tive um sonho...”. A presença de elementos poéticos na narrativa de Sonhos eclode em todos os seus episódios, de maneira diferenciada. Kurosawa busca apresentar signos representativos de uma linguagem onírica interligada a temas fundamentais de sua vida e da cultura japonesa, a saber: - a infância em “O Sol em meio à chuva”; a natureza em “O Pomar dos pêssegos”; a morte, em “A Nevasca”; a arte, em “Os Corvos”; a bomba atômica, em “Monte Fuji em Vermelho”; a ganância, em “O Demônio Chorão”; e a tecnologia versus tradição em “Povoado dos Moinhos”.
Além da característica sintética, Sonhos se destaca com um filme que não se limita a uma única interpretação. Cada curta [montagem inicial da película- vários curtas] está repleto de valores morais e filosóficos, que se abrem como num hai kai, linguagem poética-por similitude conceitual, conjugada em sugestiva relação onírica.  

Pomar de Pêssegos é capitulo marcante. Levado por uma estranha força ao local onde ficava o pomar de pêssegos de sua família, um garoto encontra o imperador japonês e seus súditos numa espécie de morro cortado em patamares - o que remete à tradicional hierarquia japonesa. Eles estão preparados para dançar e celebrar "O Dia da Boneca", ou seja, o florescimento dos pessegueiros, pois os bonecos representam os espíritos das árvores. Porém todas foram cortadas e não há mais o que celebrar. Acusado de egoísta pelo imperador, o garoto puro chora a morte das árvores. Como prova de comoção eles dançam uma calma e sincronizada dança. Nesse momento começa a chover pétalas de flores de pêssego e no local em que estavam as pessoas surgem lindas árvores floridas.


Os questionamentos sobre o caos da modernidade são profícuos, destaco:
-de que adianta tanto conforto proporcionado pelas invenções atuais, se paz já não há; se o homem perdeu seus valores fundamentais, tanto nas relações interpessoais- quanto nas relações com a natureza?


O filme termina com uma lição: um cortejo festivo para celebrar a morte de uma senhora de 99 anos - afinal, nada mais justo do que se despedir de uma pessoa que viveu muito bem e de forma completa com dança e música.

 O fascínio do diretor pelo pintor Vincent Van Gogh

[Van Gogh, desenho de Akira Kurosawa para o roteiro de Sonhos].

 [Martin Scorsese no papel de Van Gogh: Sonhos de Akira Kurosawa]

O fascínio do diretor pelo pintor Vincent Van Gogh ,é retratado em Corvos, no qual um homem, ao admirar um quadro do artista, é levado para dentro da obra. Além de passear pelas pinturas do ídolo ao som da Nona Sinfonia de Beethoven, recebe uma lição de pintura do holandês:
-só é capaz de pintar aquele se envolve com a natureza, que a admira e segue a beleza que ela tem a oferecer. 

Neste cenário cromático, estabelecido o diálogo entre movimentos e poesia, que ao olhar cinematográfico permite conceber a imagem como um quadro a ser pintado com as cores possíveis de nossas percepções sobre o universo que nos cerca, através  da interlocução entre culturas e as mais diversas áreas do conhecimento, alargando novas perspectivas para os saberes.

"Sonhos", em cada um de seus segmentos, pode justificar longos ensaios e apreciações sobre a condição humana, demonstrando que o ser por mais suscetível que esteja às vicissitudes do mundo, poderá sempre concebê-lo de forma poética ao mesmo tempo em que se permite a critica sobre a sociedade e sua conturbada realidade vigente.

A Imagem Poética

  
Selecionamos Os Corvos, para demonstrar a analogia entre poesia das imagens e a cinematografia poética, sempre aliada a elementos sonoros, dramaticidade, simbologias, espaço e tempo. Neste episódio [o que também se manifesta em todos], Akira nos mostra a imagem como um vislumbre da verdade que nos é permitida em nossa cegueira, tornando-a única e singular-como a própria vida é. Os instantes poéticos de cada cena se fixam no infinito de nossas memórias, representados como figuras de recriação do que há de peculiar e único, é o Poeta a dizer de cada objeto, de cada gesto, em sua mais absoluta exclusividade onírica.
A câmera de Akira é o olho que tudo vê e revela, observem tal assertiva na cena descrita: - um homem caminha entre as telas-pinturas, durante este caminhar o Diretor realiza enquadramentos onde despontam magicamente as paisagens propostas pelo Pintor. Dentre os elementos que marcam a presença do diálogo com o poético pode-se visualizar as composições das cores, a lúdica estrutura cenográfica. A luz pontua e enfatiza a poesia. Desta forma percebemos que Kurosawa brinca com a relação entre o tempo e o espaço, de maneira a criar uma narrativa metalinguística, que extrapola os limites da percepção no quadro fílmico. O tempo é dimensionado de acordo com a passagem do personagem por cada quadro e o espaço é redefinido pela plasticidade de cada paisagem pintada por Van Gogh.

São múltiplas as modalidades em que se pode absorver a atuação de uma montagem poética no cinema. Uma delas é o domínio da regência cinematográfica de forma tal, que se torna possível conjugá-la a outros suportes artísticos como a pintura, a música, o teatro, a dança, e a literatura.

E nesta arte, Akira Kurosawa é uma das maiores expressões contemporâneas, pois como poucos, conseguiu promover de forma magistral a interação poética e narrativa fílmica, em processo de tradução intersemiótica – nas conversas entre literatura e cinema, construindo as mais belas simbologias cinematográficas.

Só um artista e pensador em sua plena maturidade poderia conceber uma obra em que unisse a reflexão, a visão onírica de um território tão imenso como o dos sonhos - como um verdadeiro hino a favor da humanidade.


AKIRA KUROSAWA É ENTIDADE PLURAL E ETERNIZADA NA SÉTIMA ARTE!







Filipa Saanan

*Akira Kurosawa, em japonês 黒澤 明, Kurosawa Akira, (Tóquio, 23 de Março de 1910 – Setagaya, 6 de Setembro de 1998) foi um dos cineastas mais importantes do Japão, e seus filmes influenciam uma grande geração de diretores do mundo todo. Com uma carreira de cinquenta anos, Kurosawa dirigiu 30 filmes. É amplamente considerado como um dos cineastas mais importantes e influentes da história do cinema.

Leitura Recomendada




À ESPERA DO TEMPO – FILMANDO COM KUROSAWA

Autor: Teruyo Nogami
Tradução: Diogo Kaupatez
Prefácio: Donald Richie
Quarta capa: Martin Scorsese
Coedição: Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Idioma: Português
Coleção: Mostra internacional de cinema


Reunião de textos escritos e ilustrados por Teruyo Nogami sobre o trabalho que exerceu ao lado do cineasta Akira Kurosawa como continuísta e diretora associada por aproximadamente meio século. De Rashomon até Madadayo, Nogami manteve uma espécie de diário em que registrava curiosidades sobre as filmagens, os bastidores e as locações, entre outras coisas. Seus relatos em primeira pessoa, sempre acompanhados por desenhos das “cenas” mais marcantes, eram confeccionados durante as folgas entre as filmagens, enquanto a equipe esperava pelo tempo perfeito para o trabalho.

Seis anos depois da morte de Kurosawa, a autora decidiu reunir em livro todo esse material, além de alguns textos já publicados em revistas de cinema e relatos novos. À espera do tempo – Filmando com Kurosawa, que a Cosac Naify lança em parceria com a Mostra Internacional de Cinema, publicado agora numa tradução diretamente do japonês possibilita o conhecimento não só da obra e personalidade do cineasta, mas principalmente do processo criativo e produtivo de um dos maiores gênios do cinema.