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sábado, julho 09, 2011

in ," Amor em conTextos "

Inominatus

Filipa Saanan


A palavra corta a tez da paisagem, corta o tempo, cicatrizes que o olhar bem sabe ler. Corta esta dor tão sucessiva, textura de minhas raízes- corta-me! 

A palavra quer morrer-se, porém ainda assim escrevo: com as letras de prantos, pelas leiras de minha história. Escrevo para chover-me nessa canção urdida no sal, nessa partitura cerzida com os fios da memória:


-Basta um descuido, e a dor volta a rugir, as unhas roxas, o peito rocha. O Verbo Divino me acontece é nos filamentos dos sustos, nos miolos das teias, nos vãos de abismos. A voz que me sobra, escorrega entre sedes e brumas, bebe o último fôlego nas frestas do caminho. Suga o ar que lhe escapa, mas já nada decifra.

Nas mãos dos mistérios em inversas linhas, minha epigrafe- ferida aberta em busca de abrigo nos relâmpagos: habitar o clarão. Inominado caos a sacudir o não, para se esconder na luz!

As sobras que sou, falecem nos musgos da fé, e o grito transita sucessivamente pelas raízes da carne.

Tudo é metamorfose: infância resgatada.

Outrora, alguma coisa me velava, uma medalha turquesa contra o crepúsculo das trevas, entre o brilho e a espuma arrancava de minhas pupilas litanias escuras. Infatigáveis eram as ternuras e misericórdias, como um rio desaguando perpétuos inicios.

Nada aprendi do evangelho das conformidades.
 
Quem se conformará?

Quisera rasgar o chão, esticar um mundo branco de açúcar fininho, aquecer mil voltas nos sopros de outros ventos que nem conheço, mas transfiguro-me calvários e medos, ocos e degredos.
 
Na morada vazia, lamentos extremados costuram sumidouros e cruzes no céu da boca, fende todos os cômodos de meu corpo, como cimitarra cavada em cada osso. Rasga as veias, estreita a alma que ficou trancada no porão até envelhecer-me.

Porque o meu coração não dorme, enquanto Deus entranhado de outonos cochila dentre as aléias de juncos, tento roubar-lhe a justeza das coisas.

Mas, invadir eternidades, não é raso.

Estou a falar de amor e do Pai, ambos mortos.

O anúncio de possibilidades é fraude, nada se cumprirá: amarga claridade.

Este silêncio que agora se faz, é definitiva dissolução gritando fim em meus ouvidos, é ogiva nuclear da linguagem a queimar obviedades dolorosas desta dor inominada que me puxa pelos cabelos, e me explode em milhões de átomos desolados de eternidades.

Mas, teu nome- pedra angular, vértice do amor sem gravidade, como esquecer?

Não é preciso acender o candeeiro para te ver!

julho/1986-pag. 22