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sábado, julho 02, 2011

de Pequenas Histórias...

Arrebatamento





Filipa Saanan

Coralina consumia-se dentro de uma dor escandalosa que ultrapassava os ocos de sua insuportável solidão. Dor de crisálida para ser borboleta, dor de semente para ser flor, dor de rio para ser maresia. Tinha medo dos planos da avó com o padre, não queria ser sal da terra, não queria ser santa. Para vingar-se, quando o rubor do sol esmaecia no cair da tarde: sonhava! Cuidava dos silêncios para não assustar seus pensamentos.

Caminhava em dias de vírgulas.
Lavava a louça da cozinha, lavava e espremia suas vontades na espuma do sabão, o tédio ardia nos dedos, mas nunca escorria no ralo.

Velava as horas em pontos de cruz.
Bordava o tapete na varanda, bordava e fincava com a agulha os proibimentos da avó, enquanto lacrimosos desenhavam-se corações, rosas e agapantos.

Queria mesmo é bordar um tapete alado e entrar nas permissões do vento.
Queria é bordar liberdades.

Queimava-se nervo a nervo. Desfolhava-se pétala por pétala, qual flor vadia lambendo margens baldias.

Com absoluta impaciência, passava a semana inteira a esperar pelos filmes aos domingos no Cine Odeon. Cada um era magia nova, guardava todas as cenas para desenhar suas ideias messalinas.

O Sudário que adornava o oratório da sala era cópia sem santidade, sabia, mas lhe causava temores dos castigos de Deus, quando escrevia seus gostos no caderno de sonhos: mãos tateando suas partes, cheiro de homem a perfumar suas carnes, calor a queimar entre o joelho e a cintura, e aquele ardor a alvoroçar seus abismos.

Tragava em seco as reticências do desejo.

Mas, o olhar diagonal era denúncia, mergulho libidinoso na devassidão, qual adaga a cortar todas as pilastras de seu mundo-miúdo, rompendo as cascas, revelando segredos despudorados, quando espiava o moço do apartamento de frente a correr nas areias de Copacabana.

Poder trincar cada arrepio que lhe tomava naquele corpo viril, aguar o coração até o êxtase-tatuado em mil e uma noites nos lençóis moídos de faltas.Queria além, mais que as  chuvas de seivas vertidas pelas purgações do corpo. 
Sonhava e contorcia-se em agonias, até a raiz dos dentes.

Vivia de esperar as páginas virgens dos sonhos, onde anotava todos os pecados.

Cobriu o pequeno altar e as fés da casa, escondeu o rosário de cristal na gaveta, bicho no cio, deitou nua. Flexível como haste do salgueiro ela verga. 
Em suas mãos sabores vermelhos e as danças dos sentidos atiçam todas as labaredas de sua fome. Febril, passeia e desliza entre as vertigens do sexo.

Dentre os veios do prazer, escoam todos os seus afluentes, sarça que arde na pele do ventre.De sua boca farta de inventos e doçuras, saltam todos os seus avessos e espinhos a rasgar as retinas do leito.

Selvagem, Coralina cavalga o amor até prover pleno esquecimento de si.
Líquida , persegue o gozo como quem persegue iluminantes epifanias. Embriagada e úmida bebe do vinho, come da carne: - fêmea plenifica-se!

Quando os olhos relaxam, tudo é!